Esquema de desvios no gabinete de Jardel, deputado estadual - RS.
Assessores no gabinete do deputado com dinheiro.
MP e policiais cumpriram mandados de busca e apreensão nesta segunda.
Denunciado por fraudes por um assessor de seu gabinete, o deputado Mário Jardel (PSD) aparece em gravações de vídeos e áudios analisados pelo Ministério Público falando sobre dinheiro que seria oriundo de desvios da Assembleia Legislativa e também de parte dos salários que o ex-jogador exigia de funcionários, conforme aponta a investigação.
Na manhã desta segunda-feira (30), investigadores do MP e agentes da Polícia Civil cumpriram mandados de busca e apreensão no apartamento de Jardel e no gabinete dele na Assembleia, além de outros seis endereços. A operação, nomeada de Gol Contra, tem o objetivo de encontrar mais provas das irregularidades.
Durante mais de dois meses, o informante passou detalhes das fraudes aos promotores do MP. A autorização da Justiça para acesso a escutas telefônicas e vídeos ajudou a comprovar o esquema.
A partir de toda a apuração, o procurador ressalta que, no mínimo, será possível denunciar o deputado pelos crimes de concussão, peculato, lavagem de dinheiro e, talvez, por tráfico de drogas.
Em uma das gravações, o delator tenta entregar a Jardel R$ 3 mil, que corresponde à metade de seu salário. Mas o deputado, que recebe os servidores em seu gabinete, diz que o repasse teria de ser feito a outro assessor, encarregado de recolher o dinheiro.
Para disfarçar, Jardel usa um código. Ele diz que o valor é para o pagamento de camisas. Abaixo, confira a transcrição:
Jardel: Esse dinheiro aí é do [nome preservado], entrega pro [nome preservado] esse dinheiro aí.
Assessor 1 [delator]: Tá. Tranquilo.
Jardel: É das camisa, pra ele… [pra ele] pagar. Entendeu?
Assessor 1 [delator]: Ah, entendi. Entendi. Tá bom.
Jardel: É os três mil da camisa, né?
Assessor 1 [delator]: É.
Jardel: Entrega pra ele, que ele foi… ele saiu ali com… com o [nome preservado].
Mais tarde, o delator encontra o colega que receberia o dinheiro, com outro funcionário do gabinete, e faz a entrega.
Assessor 1 [delator]: Eu fui dar o dinheiro pra ele, ele mandou eu dar pra ti.
Assessor 2 [Roger, que recebe o dinheiro]: Não, [ele mandou dar] pro [funcionário], que é pra dar pra ele.
Assessor 2 [Roger, que recebe o dinheiro]: Ele mandou o [funcionário] pegar de todos nós. Então tu dá pra mim, eu dou pra ele.
Assessor 1 [delator]: Então tá.
Assessor 1 [delator]: Oito, nove, dez, onze, doze… quinze, dezesseis, dezessete, dezoito, dezenove, vinte, vinte e um… três, quatro, vinte e cinco.
De acordo com a investigação, o dinheiro extorquido dos assessores bancava despesas pessoais de Jardel e servia até para pagar o aluguel do apartamento onde mora um irmão e a mãe dele.
Uma das escutas telefônicas autorizada pela Justiça mostra que Jardel liga para um de seus assessores e diz que o pagamento do aluguel não foi realizado.
Jardel: Amanhã é dia dez, né, [assessor]? Esqueceu de... de fazer o negócio da minha mãe, [do] apartamento, e eu quero o negócio amanhã, o negócio do... o negócio do... da...
Assessor 3 [Ricardo]: Não, eu não, Jardel!
Jardel: [fala sobreposta] o dinheiro pro... O que é que vocês fazem, cara? Eu dou o dinheiro, dou a nota pra vocês pagarem, vocês esquecem de pagar as coisas?
Assessor 3 [Ricardo]: Não, eu vou... vou fazer o seguinte, ó: eu vou ver amanhã.
Jardel: [...] minha mãe, não, né, cara! O cara ligando pra minha mãe, minha mãe já é doente...
Quando Jardel fala que entregou notas para o assessor, seriam notas frias de hotel para receber diárias por viagens não realizadas. Em outra ligação, um dos assessores ligou para o colega e pediu o número da imobiliária para avisar que faria o pagamento com dinheiro das diárias.
Assessor 3 [Ricardo]: Tem o número dessa p$*&% dessa imobiliária?
Assessor 3 [Ricardo]: Eu vou dar um cheque pré-datado até eu fazer essas diária aí e entrar as diária pra mim. Mesmo que eu pague o juro, aí o dinheiro fica pra mim.
Assessor 2 [Roger]: Tá. Eu vou chegar ali em cima e já te ligo.
Segundo a investigação, até a fatura do cartão de crédito da mulher de Jardel era paga com dinheiro desviado do gabinete.
Além disso, a investigação também descobriu a ligação de Jardel com um traficante de drogas. E a compra das drogas também seria feita com dinheiro desviado.
O relatório do Ministério Público diz ainda que a droga entregue pelo traficante era consumida por Jardel durante programas com uma prostituta, também contratada como funcionária fantasma do gabinete.





